©2019 POR MARCUS DIAS, ÂNGELA SERPA, FAMILIARES, PARCEIROS E AMIGOS

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PORTAL VERMELHO

6/1/2019

COMPOSITOR CEARENSE MARCUS DIAS SOFRE AVC E RECEBE APOIO SOLIDÁRIO

Um dos nomes mais destacados da cena musical cearense, com músicas cantadas por artistas como Simone Guimarães (SP) e Leny Andrade (RJ), o compositor, poeta e cantor Marcus Dias, parceiro de artistas como os cearenses Pantico Rocha, Isaac Cândido, Marcílio Homem e Rogério Lima, é o centro de uma forte corrente de solidariedade nos últimos dias, em Fortaleza.


 Marcus Dias, o Marcão, além de talentoso compositor é uma pessoa extremamente querida no Ceará
O artista sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) de grande extensão, em plena madrugada do último dia 1o. de janeiro. A notícia correu os grupos de whatsapp e preocupou a quem ainda celebrava o reveillon, enquanto Marcus foi internado no Hospital Geral de Fortaleza, mantido pelo Governo do Estado do Ceará, onde segue em tratamento.

Rapidamente, uma grande rede de apoio a ele e à família foi formada, com diversas ações. Amigas como as jornalistas Ethel de Paula e Silvia Bessa articularam rapidamente uma campanha de arrecadação de recursos, destinados ao tratamento e à manutenção da família de Marcus e de sua companheira, Angela Serpa, pais de duas crianças. Duas rifas, de uma obra de arte assinada pela fotógrafa Nely Rosa e de uma guitarra semiacústica Hofma, foram lançadas para reforçar a arrecadação de recursos, com contribuições.

Para participar, basta depositar o valor mínimo de R$ 100,00 na conta de Angela (Caixa Econômica Federal, Agência 1888, Operação 013, Conta 25790-0, CPF 648.888.353-49), enviando o comprovante por whatsapp para 85.99973.3054 e escolhendo um número entre 0 e 999. O sorteio será pela loteria federal no dia 26 de janeiro, com os dois números mais próximos recebendo os prêmios.

Dois shows beneficentes estão marcados, para os dias 12 de janeiro (no Cantinho do Frango, espaço da música autoral de Fortaleza) e 30 de janeiro (no Theatro José de Alencar, o mais tradicional da cidade), envolvendo dezenas de artistas em solidariedade a Marcus Dias.


Marcus Dias: uma obra intensa e lírica


Marcus Dias escreve canções e realiza shows autorais desde o final dos anos 80, com destaque, a partir dessa época, para as parcerias com Isaac Cândido e Marcílio Homem. Com grande destaque para suas letras que unem intensidade e lirismo, sentimento e originalidade, beleza e ousadia, tem também canções em que é autor tanto da letra quanto da música.

Várias de suas canções foram registradas em dois discos em parceria com Isaac Cândido ("Isaac Cândido", de 1999, e "Algo Sobre a Distância e o Tempo", de 2005), além de um disco gravado por Isaac Cândido e Simone Guimarães ("Cândidos", de 2010) e três discos em parceria com Pantico Rocha, percussionista, violonista, compositor e diretor musical, nacionalmente aclamado por dividir palcos e estúdio com nomes como Lenine e Maria Bethânia, além de desenvolver um trabalho de formação de novos músicos no pré-carnaval e no carnaval de Fortaleza. São eles: "O Barulho do Sol do Meio Dia" (2007), "Nem Samba nem Sandra nem Mar" (2013) e o novo "Tudo que Passa é Permanente", a ser lançado em breve.


Um escritor de canções

Entre as muitas obras-primas de Marcus Dias e parceiros estão a valsa "Brisa", parceria com Marcílio Homem, em que o poeta transborda: "Redescobrira o amor e andava meio distraído / Imaginava como podem ser tão desiguais / Enquanto alguns amores são como engarrafamentos nas perimetrais / Outros são como brisa umedecendo as folhas dos canaviais / Amores pouco verdadeiros, amores brigueiros, amores normais / Amores que ninguém descreve, amores de conserva, amores naturais / Se fosse descrever o nosso amor, eu só diria: ele é nada mais do que uma leve brisa sobre o para-brisa dos outros casais".

 
O maior sucesso do compositor, porém, é a bem-humorada "Os Bêbados", gravada por Isaac Cândido, em que um inteligente desfile de proparoxítonas desafia a moral e os bons costumes. Canção muito indicada para esses tempos de neoconservadorismo: "Sábado é o dia dos bêbados e das moças católicas que vão para a missa rezar pra tentar encontrar... algum bêbado".

Marcus é também um cronista de pegada concreta a retratar sentimentos recônditos no dia a dia de quem se acostumou a anestesiar o olhar, diante de um mundo cada vez mais solitário, desigual, desumano. "Sem nome, sem casa, sem rua, sem praça, sem terra, sem mar / Com os olhos de gente vigia a donzela do primeiro andar / De pele macia, como nunca se encontra do lado de lá / Com sede, com fome, com frio, com medo, com cheiro de bar / Confusão na avenida, uma moça agredida e um homem a chorar", canta em "Descontrole", parceria com Isaac.


Palavra e sentimento

Mas o lirismo vence a desesperança, como em "Disneylândia (Fantasias)": Os vaga-lumes eram magos, eram vigilantes mágicos do palmeiral / As borboletas eram fadas que brincavam pelas tardes do meu quintal / Quem pensaria em solidão? Quem pensaria em solidão? / Eram as flores um presente de algum Deus que olhava a gente contra o mal / E até ficavam mais contentes como as roupas reluzentes no varal / Na ventania um carnaval / Na ventania, como um carnaval / Onde é que a vida virou, que as flores não dançam mais?".

Além de se somar à rede de solidariedade, vale aproveitar o começo de ano para se informar mais sobre as condições de saúde que concorrem para AVCs, procurando se prevenir. Vale também conhecer (e reconhecer) mais a obra de Marcus Dias e parceiros. Nosso angustiado coração neste 2019 que está só começando, merece o alento dessas canções de intensa beleza, como só Marcus sabe fazer, em sua melhor forma de ser e de fazer o ouvinte feliz.

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DIÁRIO DO NORDESTE

29/1/2019

SHOW EM PROL DA SAÚDE DO COMPOSITOR MARCUS DIAS ACONTECE NESTA QUARTA NO TJA

A apresentação, realizada no Theatro José de Alencar, será a terceira de uma série a favor da campanha solidária

  
Marcus Dias, o "Marcão", sofreu um AVC na passagem do ano
A corrente de solidariedade em prol da saúde do compositor cearense Marcus Dias segue firme. Desde o último dia 13, artistas da cena musical cearense têm se apresentado para arrecadar recursos a favor do tratamento de Dias. Ele sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) na passagem do ano, e desde então foi internado no Hospital Geral de Fortaleza (HGF). 
Nesta quarta (30), às 20h, o terceiro show beneficente da série “Dias Solidários” acontecerá no Theatro José de Alencar (Centro). Mais de 50 músicos cearenses se reunirão no palco do TJA. Interpretada por nomes como Fagner e Leny Andrade (RJ), a obra de Marcus Dias será cantada, nesta ocasião, por Kátia Freitas, Isaac Cândido, Pantico Rocha, Ciribah Soares, Davi Duarte e Rodger Rogério, dentre outros.  


A banda de apoio será formada por músicos como Cristiano Pinho, Mimi Rocha, Rogério Lima, Lu D `Sosa, Ricardo Pinheiro, Marcio Resende e Miqueias dos Santos. A direção do TJA cedeu a pauta do espaço e todos os artistas envolvidos não cobrarão cachê. Toda a organização da série de espetáculos - da divulgação à sonorização - é voluntária. Duas apresentações já aconteceram, no Cantinho do Frango (Aldeota) e Serpentina Bar e Cultura (Centro).  
Pai de duas crianças e casado com Angela Serpa, Marcus Dias, com o apoio de uma rede de amigos e da realização dos shows, foi transferido do HGF para o Hospital Sarah Kubistchek (Passaré), onde se encontra em tratamento.


Obra 


Na ativa no cenário da música autoral cearense desde os anos de 1980, Marcus Dias escreveu com vários parceiros, com destaque para Isaac Cândido - parceria registrada nos discos "Isaac Cândido", de 1999; "Algo Sobre a Distância e o Tempo", de 2005 e “Cândidos”, 2010 - e Marcílio Homem.  


Dias também produziu ao lado de Pantico Rocha, compositor e músico cearense, baterista da formação de apoio de Lenine (PE). Três discos dão conta da parceria: "O Barulho do Sol do Meio Dia" (2007), "Nem Samba nem Sandra nem Mar" (2013) e o novo "Tudo que Passa é Permanente", ainda inédito.  


Serviço 
Dias Solidários 
Show beneficente em prol do tratamento do compositor cearense Marcus Dias. Nesta quarta (30), às 20h, no Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525, Centro). Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Contato: (85) 3101.2583 

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JORNAL O POVO

1/2/2019

"EU TENHO ASAS, NÃO SE ESQUEÇA"​

| Música | O Vida&Arte resgata trajetória do cantor e compositor Marcus Dias, homenageado em show beneficente


Quando o cantor e compositor Isaac Cândido quebrou o braço direito em um acidente automobilístico, anos atrás, seu parceiro musical Marcus Dias visitou-lhe em casa como de costume. Carregava uma poesia rabiscada à mão, presente para o amigo acamado. "Baleado no peito e como que sem jeito/Um pássaro desaba sobre algum telhado/Eu tenho asas, não se esqueça/Estão cortadas, mas tudo bem". As palavras ganharam acordes e tornaram-se mais uma composição do extenso repertório do letrista.


Hoje, tantos anos passados, Isaac volta a dedilhar Sobre as Asas em seu violão quase como uma prece: no último dia 31 de dezembro, o compositor Marcus Dias sofreu um AVC. A recuperação ainda é lenta, mas o estado de saúde mobilizou a cena artística cearense no desafio de homenagear sua obra e angariar fundos para o tratamento.
Marcus Dias chegou a cursar Engenharia, depois abandonou os números e ingressou em Letras. Mas foi nas ruas do Bairro de Fátima, há mais de 30 anos, que sua paixão pela música se presentificou.


"Na realidade, eu e o Marcus praticamente começamos a compor juntos. A gente morava quase vizinhos. Conheci o Marcus quando ele tocava violão na calçada. Parei para conversar, falei que era músico, aquele encontro que terminou em um barzinho na esquina e começou uma parceria. A gente foi um pouco marginalizado porque sempre tocava autoral. Marcus nunca gostou desse negócio de cover", rememora. A composição mais famosa da dupla é Os Bêbados, mas os músicos acumulam mais de 200 canções partilhadas na estrada conjunta.


Em 2005, 10 melodias de Marcão - como é conhecido entre os amigos - musicadas por Isaac e uma canção de Raimundo Fagner com Abel Silva foram reunidas no atemporal álbum Algo sobre a distância e o tempo.

Ao longo dos anos, o Vida&Arte acompanhou e noticiou os movimentos de Marcus Dias: entre 1996 e 2000, o cantor e compositor uniu-se a Dilson Pinheiro na gestão de um dos mais frequentados espaços de música na cidade - o Domínio Público. Também foi proprietário de uma loja de instrumentos no Centro, mas o amor pela escrita deu o tom de seus dias. Além de Isaac Cândido, Marcus fez parcerias com artistas, como Rogério Lima, Marcílio Homem, Edmar Gonçalves, Ciribáh Soares, Pantico Rocha e a banda carnavalesca Luxo da Aldeia.


"Pra mim, além do Fausto Nilo, o Marcus é o maior letrista que tem. Eu o exalto demais! O Marcão tem umas letras maravilhosas. Eu fui me apaixonando pela maneira como ele escreve, são mais de 10 anos união e cerca de 50 músicas juntos", recorda Pantico. 

Após o Carnaval, Pantico lançará o disco "Tudo que passa é permanente", último da trilogia composta com Marcus Dias.


"O respeito pelo trabalho sempre foi o que o Marcus precisava e queria", resume Isaac. Amanhã, o palco do Theatro José de Alencar recebe mais de 60 artistas voluntariados em um show beneficente que passeia pela carreira do compositor. Os lucros arrecadados vão custear o tratamento que Marcus inicia, agora, no Hospital Sarah Kubitschek. Da plateia - debilitado, mas muito lúcido -, Marcus acompanhará seu recomeço na voz dos companheiros.


BRUNA FORTE


 
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DIÁRIO DO NORDESTE

19/9/2014

ALGO SOBRE A DISTÂNCIA E O TEMPO DE UMA AMIZADE

Isaac Cândido sobe ao palco do Sesc Iracema para apresentação com seu parceiro de composição Marcus Dias


CADERNO 3


Na correria do dia a dia, às vezes é difícil manter contato com as pessoas que consideramos queridas. Mesmo assim, a relação existe, de forma latente, resistindo à distância e ao tempo. Um exemplo desse tipo de convivência é a parceria entre o compositor Isaac Cândido, velho guerreiro da cena musical cearense, e o poeta Marcus Dias, que realizam apresentação hoje, às 21h, no Teatro do Sesc Iracema. No palco, o resultado musical dessa amizade que já dura quase 26 taduzido no álbum que dá nome ao show, "Algo sobre a distância e o tempo", lançado em 2005, único trabalho com músicas compostas exclusivamente pelos dois amigos.


O início da amizade deu-se pelas afinidades cancioneiras, em 1989. Marcus, que até então escrevera somente poesias, encontrou Isaac Cândido, que ao longo da carreira especializou-se na musicalização de poemas. O desfecho era quase óbvio. Os amigos compuseram intensamente durante seis anos seguidos, gerando um volume considerável de canções. "Era uma necessidade básica nossa compor para realizar shows com um repertório autoral", diz Isaac Cândido, em entrevista concedida logo após ensaio do show de hoje à noite.

Composições


Fazendo parte do grande grupo de músicas que realizam uma segunda atividade profissional para conseguir o sustento mensal, o processo de composição entre os dois parceiros foi suspenso por anos, ainda que a amizade fosse preservada. Nesse meio tempo, Isaac Cândido realizou projetos musicais paralelos, lançando um álbum homônimo, em 1999. Em todos, havia canções com Marcus Dias, mesmo que ainda houvesse a colaborações de outros parceiros musicais. "80% do meu repertório é em parceria com Marcus", ressalta Isaac.

Parceria

O compositor e violonista cearense ainda tem em sua discografia um álbum que ele classifica como o "momento mais especial" da carreira. O disco "Simone Guimarães interpreta Isaac Cândido" foi gravado em 2003 em parceria com a cantora paulista quando ambos estavam residindo no Rio de Janeiro.


"O buchicho na época era a Simone, que estava emocionando todo mundo. Alguns amigos estavam tocando na banda dela e começamos uma amizade também", detalha Isaac. O trabalho da parceria entre a cantora e o cearense conta com 12 músicas de Isaac, escolhidas em um total de 200 composições. Simone se destacou no cenário musical ao realizar participações especiais em trabalhos de nomes como Milton Nascimento, Maria Rita, Ivan Lins e Hermeto Pascoal.

Retorno


Após o hiato da parceria com Marcus Dias, os dois amigos registraram o disco "Algo Sobre a Distância e o Tempo", entrando em recesso musical em seguida. Além do espetáculo com o amigo poeta, que será apresentado hoje, Isaac Cândido conta ainda com os shows "Além da Fronteira", com composições que falam sobre o mundo fora do Ceará, e "Sobre as Asas", tratando sobre a liberdade.

A retomada de mais uma vez da parceria no palco celebra a proximidade e a amizade de longa data dos dois artistas, tema de destaque da apresentação e das composições que serão apresentadas.

"É um trabalho bem maduro", diz Marcus Dias. A apresentação será permeada com momentos em que o poeta declamará textos de sua autoria e de outras pessoas. "É uma característica dos projetos que eu realizei com o Isaac. Tem sempre essa cara de sarau".

No novo trabalho, os compositores contam com a participação de artistas como Nayra Costa e Alexandre Veras.


Mais informações:

Algo sobre a distância e o tempo, com Isaac Cândido e Marcus Dias. Hoje, às 21h, no Sesc Iracema. Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Tel.: (85) 3252-2215


LEONARDO BEZERRA

Repórter

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DIÁRIO DO NORDESTE

5/5/2004

ALÉM DO TEMPO E DA DISTÂNCIA

CADERNO 3

Eles estão de volta. Isaac Cândido e Marcus Dias levam ao palco do Theatro José de Alencar o resultado de uma das mais profícuas parcerias de compositores na música cearense. O show “Algo sobre a distância e o tempo” conta ainda com a participação de Raimundo Fagner

A vontade de superar a distância que ainda nos mantém longe demais das capitais levou o cantor e compositor cearense Isaac Cândido a encarar, em 2003, uma temporada no Rio de Janeiro, abrindo uma série de shows da cantora Leny Andrade. Nova viagem ao “Sul” maravilha, em busca de horizontes mais promissores para uma musicalidade calcada em apuro harmônico, experimentação e cuidado poético. Neste último quesito, em grande parte a “culpa” cabe a Marcus Dias, autor da maioria das letras das mais de 200 composições que Isaac carrega em sua obra.

Um repertório, ao menos em parte, já devidamente conhecido por quem conferiu o CD de estréia de Isaac Cândido, lançado em 1999. O disco traz o timbre grave do cantor interpretando principalmente criações de sua própria lavra, em maior parte parcerias com Dias, que assina ainda música e letra de “Os Bêbados”, espécie de “carro-chefe” do álbum. No geral, um trabalho bem produzido, com virtudes peculiares em relação à cena local - principalmente quanto às composições.

Isaac e Marcus contam que o auge de seu processo criativo em parceria se deu de 1987 a 1992. “Por volta de 87, fui morar na rua dele, perto da Lauro Maia, ali no Bairro de Fátima. Parece incrível, mas, no primeiro dia morando lá, saí pela rua e encontrei o Marcus tocando violão, na casa dele. Daí nos conhecemos, começamos a fazer música, ficamos uns dois anos só compondo, muito influenciados pelo Chico Buarque”, recorda.


Os bares “Toca da pantera” e “Cana Verde” foram os primeiros pontos de encontro e troca de idéias. “Era uma coisa muito solta, amadora. Até que resolvemos dar um impulso mais profissional, a partir da ajuda do (fotógrafo) Drawlio Joca”, lembra.

A tentativa de profissionalização redundou nos primeiros shows, em bares, festivais de música como o de Camocim, calouradas e nos espaços da Emcetur e do BNB Clube. “Mesmo nos bares, os shows sempre privilegiavam as nossas músicas. Fazíamos questão de ter um folheto com o programa, as letras das músicas”, assinala o cantor.

Já em 1992, a dupla começou a se distanciar. “Fomos morar em Brasília, e a convivência se desgastou um pouco. Em seis meses fizemos shows lá e também em Minas, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, até voltar pra Fortaleza. Mas fiquei ainda com muitos poemas de arquivo, depois da ‘separação’. Muitos deles viraram músicas, algumas que nem o Marcus conhece ainda”, revela Isaac, sustentando que os parceiros nunca se desentenderam seriamente: “A gente sempre discutiu muito os shows. Os músicos ficavam esperando a gente terminar de brigar, pra ensaiar. Mas não houve nenhuma briga pra valer. Era uma coisa normal, de discutir repertório, palco, questões artísticas”.

RETORNO


Isaac diz que há cerca de três anos vem “seduzindo” Marcus Dias com a proposta de um novo show em dupla. “O Marcus é um dos melhores letristas que já vi, e acho que se o meu trabalho está tendo agora essa aceitação fora daqui, nesses shows com a Leny, é muito por conta dessa parceria, dessas letras fortes. Depois que voltei do Rio, o Marcus aceitou o convite pro show, e já me mostrou a concepção do ‘Algo sobre a distância e o tempo’”, detalha.

“Eu estava mesmo afastado da música, trabalhando com outras coisas, com o Domínio (Público, casa de shows na Praia de Iracema que Dias manteve durante quatro anos)... E dessa vez eu tinha voltado a escrever, tinha vários textos sobre o tempo, e isso coincidiu com a chegada do Isaac. Encaixou bem”, responde Marcus. “Com exceção de um poema da Cecília Meireles, os textos do show são todos inéditos, recentes. E têm muito a ver com a nossa música. Além disso, o título do show não deixa de se referir ao nosso afastamento como parceiros. Eu mesmo não acredito que tenha passado tanto tempo!”, associa o letrista, prometendo superar a timidez ao declamar seus poemas esta noite.

Atualmente cursando Letras na Uece, Marcus aponta a poesia portuguesa - Fernando Pessoa em especial - como uma de suas principais influências. “Venho trabalhando muito o ritmo nos poemas. Tenho diminuído a intensidade da rima, até cortado rimas sempre que posso”, pontua, aos 38 anos, o poeta cujos primeiros escritos datam dos tempos de Colégio Cearense. “Na minha época, a gente viajava e via muita gente fazendo música. Hoje, acho que o que as pessoas querem é compor em mesa de bar, um processo que penso que não vale a pena. Particularmente, até recebo várias propostas para fazer músicas, mas as coisas não se efetivam. Nunca recebi uma fita (com uma melodia para letrar)”, compara.

O SHOW


Em mais uma daquelas ilusões que o tempo sabe aprontar, eis que, 12 anos depois de desfeita, a dupla Isaac e Marcus está de volta aos palcos cearenses, com o show desta noite, no Theatro José de Alencar. O palco da mais tradicional casa de artes do Estado receberá um pouco da atmosfera dos shows que a dupla realizava pelos bares da capital alencarina, no entre-décadas 80-90.


Afora aquelas que o tempo e a distância se encarregaram de prover, as diferenças entre um e outro espaço e momento incluem também a banda que hoje dividirá os holofotes com a dupla - Adelson Viana (acordeom e piano), Luizinho Duarte (bateria), Carlinhos Patriolino (guitarra, violão e bandolim), Ricardo Leite (baixo) e Lú de Souza (guitarra).

Outra surpresa é a participação especial do cantor e compositor Raimundo Fagner (ver matéria à página 4), natural de Fortaleza mas detentor de uma relação afetiva com o município de Orós, onde passou parte da infância. E onde nasceu Isaac Cândido, primo em segundo grau do autor de “Mucuripe”. “Minhas avós são irmãs da mãe do Fagner. Foi ele quem me deu meu primeiro violão profissional, mas esse agora é o nosso primeiro encontro musical, pra valer. Já tem um tempo que busco essa aproximação, mas ele é um cara muito solicitado, e acho que agora é o momento certo”, diz o cantor, que todos os domingos leva sua mãe, Dona Maria, à casa de “Tia Chiquinha”, mãe de Fagner. “E na outra sexta-feira, também no Theatro José de Alencar, já faço um show só com músicas do Fagner”, adianta.

Para hoje à noite, além de composições registradas no primeiro disco de Isaac, constam do programa canções ainda inéditas em gravação: a balada “Outra Estação” (de Marcus), “Brisa” (Marcus e Marcílio Homem, outra valsa preciosa) e “Nós” (Isaac e Marcus), que exemplifica bem a junção entre harmonia intrincada e poesia de raízes concretas, marca maior do trabalho da dupla. Os dois também vão buscar no baú frutos iniciais da parceria, como “Disneylândia”, “Clareza”, “O Tempo dos Quintais” e “Sóbrio”, espécie de auto-resposta a “Os Bêbados”. A quem desejar se embriagar de letras e melodias, a noite promete.


DALWTON MOURA

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DIÁRIO DO NORDESTE

5/5/2005

ISAAC CÂNDIDO E MARCUS DIAS - CD "ALGO SOBRE A DISTÂNCIA E O TEMPO"


“Uma das mais prolíficas parcerias da música popular cearense contemporânea, Isaac Cândido e Marcus Dias inicia a temporada de lançamento de seu segundo CD. “Algo sobre a Distância e o Tempo” chega com um apurado trabalho de produção e direção musical do percussionista Pantico Rocha, cearense aclamado nacionalmente. E registra, entre algumas regravações, uma maioria de canções inéditas de Isaac e Marcus - frutos antigos ou mais recentes de um encontro que permanece.

É tempo de saber. Para Isaac Cândido e Marcus Dias, antigos artífices da música pela ensolarada Fortaleza, chega a hora de um novo encontro entre si e com o público. Em fins dos anos 80, a parceria tomou forma e ganhou corpo, resultando em um baú de aproximadamente 200 criações e em inúmeros shows em bares da capital. Nada, diga-se, segundo a cartilha vigente do voz, violão e sucessos de rádio. Desde sempre, os dois optaram por mostrar a cara em composições próprias, cujas letras eram distribuídas em panfletos (é, ainda não se usava “folder”) aos espectadores. Poesia, melodia e descontração em palcos como o Cana Verde e o Toca da Pantera.

Já em 1992, depois de um período de intensa criação, a dupla se distanciou, depois de trocar Fortaleza por Brasília. Ao longo da década, o encontro se manteve em suspenso, até que, em 1999, Isaac lançou seu primeiro disco, homônimo, registrando boa parte das parcerias com Marcus. Além das criações da dupla, o bem-produzido CD trazia contribuições de Marcílio Homem, Rogério Lima, Jorge Hélio e Beto Paiva, além do carro-chefe, somente de Marcus Dias: “Os bêbados”. Canção que não demorou a sair dos bares para o cardápio musical dos mais atentos, ironizando não apenas os bebuns que misturam os tópicos e promovem o riso, mas também as moças católicas que aos sábados vão à missa, rezar pra tentar encontrar algum... bêbado.


No ano passado, o reencontro. Depois de uma temporada no Rio de Janeiro, onde abriu diversos shows da diva da bossa Leny Andrade, Isaac retornou a Fortaleza e começou a dar corda no antigo parceiro. Convite aceito, surgiu a concepção de um novo show, intitulado “Algo sobre a distância e o tempo”. “Eu tinha voltado a escrever, tinha vários textos sobre o tempo, e isso coincidiu com a chegada do Isaac. Encaixou bem”, Marcus reconstitui.


O show foi apresentado em espaços como o Theatro José de Alencar e o Teatro Sesc Emiliano Queiroz, além da Mostra Sesc de Música no Cariri, este ano. Na apresentação de estréia, a benção do cantor e compositor Raimundo Fagner, primo de Isaac, que participou do espetáculo, no TJA.

Agora, o show se transforma em disco. Isaac e Marcus iniciam a temporada de lançamento de “Algo sobre a distância e o tempo”. Serão quatro shows celebrando um trabalho marcado pela percussão e pela direção musical de Pantico Rocha, cearense nacionalmente consagrado por dividir palcos e estúdios, ente vários outros, com o bardo pernambucano Lenine.


“Pensamos em buscar um diretor musical que tivesse influências não só daqui, mas também de fora. E o Pantico é assim: onde você chegar no Brasil todo, ele é sempre reconhecido pelos músicos”, destaca Isaac. “A sonoridade do disco tá supercoerente, todas as músicas têm ligação uma com a outra. Foi um trabalho muito discutido, por três pessoas, sempre tendo um voto de minerva”.

De fato, o resultado é um disco de ambiência sonora sensivelmente mais pesada que no anterior.


Bateria, percussão e programações de Pantico se unem ao contrabaixo de Miquéias dos Santos, às guitarras e aos efeitos do carioca Júnior Tostoy e aos violões e guitarras do cearense Lu de Souza. “Esse é o quarteto básico do disco, que gravou todas as faixas e ao qual acrescentamos alguns convidados muito especiais”, Isaac acrescenta, citando as contribuições de Adelson Vianna (acordeon), Renno Saraiva (teclado), Mimi Rocha, Carlinhos Patriolino e Marcus Maia (violões). 


No disco, além do repertório de Isaac e Marcus, uma releitura: “Asa partida”, de Fagner e Abel Silva. “Pensamos em uma regravação, pra ter uma referência para o CD, que tanto valoriza a música do Fagner quanto o nosso trabalho também. ‘Asa Partida’ é uma música belíssima, e era um sonho meu regravá-la”, assume Cândido. Retribuindo o presente, Fagner divide com Isaac os vocais na inédita “Clareza” (do baú de Isaac e Marcus), uma das mais belas faixas do disco.


“A participação do Fagner foi supergratificante pra nós. A gente tem se aproximado bem mais, desde que ele se mostrou interessado em participar do CD, cedeu até o estúdio para gravação da participação dele. Tudo indica que ele vai participar da temporada, embora ainda não esteja certo em que data”, anuncia.

Outras releituras foram feitas por Isaac e Marcus para sua própria obra. Assim, “Os bêbados” e “Quase” (parceria tripla, com Rogério Lima) voltam a aparecer, em versões de acordo com a proposta do novo disco, cujas faixas são entremeadas por fortes poemas de Marcus Dias, na voz do próprio, às vezes aludindo ao tema de cada canção, noutras acrescentando imagens e interrogações. “‘Quase’ é uma música que se impôs para regravarmos, pela própria temática do show e do disco, sobre o tempo. E ‘Os bêbados’ é nosso carro-chefe, não tem nada que caracterize mais nosso trabalho do que essa música”, justifica Isaac.

Já “Os mamíferos”, que abre o disco com peso e poesia, mandando uma abraço para o representante-mor da vertigem da Praça do Ferreira, Mário Gomes, é, assim como “Enquanto” e “O tempo”, manifestação mais recentes da lavra da dupla, feitas a partir da atual retomada. Outras foram pinçadas do baú e das apresentações entre ouvintes mais íntimos. “Quatro tempos” - vejam só, um xote! - aparece depois de ter sido gravada no CD de João Mamulengo.


“Disneylândia” era outra antiga, mostrada em alguns shows. “Sóbrio” é dedicada à madrinha Leny Andrade. E “Brisa”... Bem, esta, assim como “Clareza”, já justificaria o disco. Trata-se de uma antiga parceria, com letra de Marcus para valsa de Marcílio Homem. Outra verdadeira jóia, assim como fora “Segredo”, no álbum anterior de Isaac.”

DALWTON MOURA